Eram pouco mais de 17 horas de uma terça-feira comum. Buzinas soavam, a nevoa turva e fétida dos automóveis deixava ofuscava as cores quentes de um fim de tarde em Salvador. A Avenida Antonio Carlos Magalhães, inegável ícone da selva de pedras, típica de centros urbanos com arranha-céus, obras inacabadas, outras a começar, edifícios comercias e residências, mega hiper e supermercados, shoppings, postos de gasolina, concessionárias, drive-true de fast-food, enfim, um mosaico de concreto, ferro e pouca madeira.
Transeuntes, motociclistas, motoristas, passageiros, vendedores ambulantes, meninos e meninas pedintes, crianças, bebes, cores, gêneros, fenótipos, estereotipo, diversidade e assaltantes!!!!!!!! Como distinguir, praticamente impossível.
Pois é, o fato que segue acontece com uma corriqueiramente de modo assombroso e as medidas de prevenção são ineficientes e as de punição são tão assustadoras quanto os acasos.
Terça-feira, o transito intenso, carros parados, menino pára na janela da motorista, carro guiado por uma mulher robusta, traços fortes, pele clara, cabelo escuro e cacheado, visivelmente tingido, provavelmente com seus 50 e poucos anos, vestida de modo simples, calça e camiseta, relógio no pulso, e reluzentes anéis e corrente, bolsa no de couro no banco do carona, som do carro ligado alto, desatenta, cantarolava alguma coisa. Menino pára oferece CD, DVD - Não brigado, outro pára começa a jogar água no pára-brisa para limpar-lo (ou sujar) em troca de alguns trocados, ela esbraveja, buzina, liga o limpa-vidro, outro vem pede dinheiro, nada nas mãos, se debruça no vidro entre aberto, não mais de 30 centímetros, uma mão no vidro outra no teto do carro - não tenho, -E Tia só uma moeda; abaixa a cabeça fita os olhos da mulher e !!!VAP!!!.... corrente sumiu, a ousadia não acaba ai, o magricela quase entra no carro pela abertura tentando chegar à bolsa, a mulher está estática, não se move, não ouve, não vê. Depois da eternidade de algumas frações de segundos ela grita, o motorista do carro ao lado grita, o de trás buzina, pessoas histéricas fazem coro – Ladrão pega Ladrão.
Então entra em cena um rapaz, também robusto, ele desce do carro, deixa tudo ligado corre atrás pega o menino, porrada, linchamento, o senhor enfurecido com o transito, indignado com o dia de trabalho desce também, e mais porrada, outras se aproximam e .... Sangue mancha um carro, menino arremessado no automóvel do lado, mulher e crianças de dentro gritam, mais sangue. Buzinas começam a soar, o transito poderia estar fluindo mais não, o carro dos juizes impedem, mais buzinas gritos xingamentos –Deixa o moleque, covarde!!! Rapaz entra no carro, menino no canteiro, velho entra no carro, menino no canteiro entre as duas pistas da Avenida, deitado, jogado, estatelado continua com a corrente no bolso. Terça-feira 20 horas não tem mais menino, nem transito intenso. Quarta-feira 17 horas carros, crianças, ambulantes, terça-feira 17 horas o mesmo, segunda-feira 17 horas..... sexta-feira 17 horas, quinta 17 horas................................................e a avenida segue.